Em meados da década de 1970, a cena cervejeira britânica vivia um momento delicado. As grandes indústrias dominavam o mercado, comprando cervejarias menores e impondo uma produção cada vez mais padronizada. No lugar das tradicionais ales em cask, vivas e cheias de personalidade, os pubs começaram a servir cervejas pasteurizadas, filtradas e pressurizadas em barris de aço, conhecidas como keg beers. O resultado? Uma bebida mais estável, mas sem alma: sem levedura viva, sem maturação natural e com menos complexidade sensorial.
Foi nesse cenário que, em 1971, quatro amigos britânicos em férias na Espanha – Michael Hardman, Bill Mellor, Jim Makin e Graham Lees – decidiram reagir. Fundaram o que inicialmente se chamou Campaign for the Revitalisation of Ale, rapidamente rebatizado como CAMRA (Campaign for Real Ale). O objetivo era claro: resgatar e proteger a verdadeira ale britânica, feita da forma tradicional, com levedura ativa no barril e servida por gravidade ou bomba manual (handpump), diretamente do pub.
Mais do que defender um estilo de cerveja, o CAMRA se tornou um movimento cultural. Lutou pela sobrevivência de pubs históricos, valorizou pequenas cervejarias independentes e reacendeu no consumidor o gosto pela diversidade de sabores e métodos de produção que estavam desaparecendo.
O impacto foi enorme. Hoje, mais de 150 mil membros fazem parte da associação, que organiza eventos grandiosos como o Great British Beer Festival e publica o prestigiado Good Beer Guide, referência mundial sobre cerveja e pubs.
Ao longo do tempo, o CAMRA ampliou seu escopo: passou a incluir a defesa da real cider (sidra artesanal sem pasteurização) e a dialogar com o cenário da cerveja artesanal moderna, mesmo quando ela foge da definição estrita de real ale. Ainda assim, mantém-se firme em sua missão de proteger esse patrimônio cultural britânico.
É verdade que o CAMRA também enfrenta críticas. Alguns o consideram excessivamente tradicionalista, preso a uma visão restrita do que é “real” cerveja. Outros, no entanto, veem nessa rigidez justamente sua importância: sem esse movimento, a real ale provavelmente teria desaparecido na maré da industrialização.
Mais de cinquenta anos depois, o CAMRA continua relevante não só pela cerveja que defende, mas pelo espírito que representa: a luta pela autenticidade, diversidade e preservação da cultura cervejeira.
Por: Maria Anita Mendes
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