O mercado brasileiro de cerveja vive uma curiosidade que poucos consumidores percebem: muitas marcas internacionais que você encontra facilmente nas prateleiras não chegam ao país por importação, mas sim por produção local sob licença. Isso significa que Budweiser, Stella Artois, Corona, Beck’s, Hoegaarden, Spaten e Leffe, por exemplo, são fabricadas pela Ambev seguindo padrões globais da AB InBev. A Heineken Brasil faz o mesmo com Heineken, Amstel, Sol e Birra Moretti, além de controlar Eisenbahn, que nasceu como artesanal brasileira. Já o Grupo Petrópolis, além de Itaipava e outras nacionais, produz Miller e Blue Moon sob licença da Molson Coors.

Quando falamos de artesanais internacionais, o cenário é mais restrito. Goose Island, nascida em Chicago como uma cervejaria independente, hoje pertence à AB InBev e é fabricada pela Ambev no Brasil. Blue Moon, criada como uma cerveja de trigo estilo belga nos Estados Unidos, também começou com espírito artesanal, mas hoje é produzida pelo Grupo Petrópolis. Leffe e Hoegaarden, com origem monástica e artesanal na Bélgica, também se tornaram marcas globais e são fabricadas aqui.

Mas se você pensa em nomes como BrewDog, Mikkeller ou Founders, saiba que eles continuam chegando apenas por importação, em lotes limitados e com preços altos. Produzir localmente exige escala, demanda e estrutura industrial que só grandes grupos conseguem oferecer. Além disso, muitas cervejarias independentes preferem manter a produção centralizada para preservar o perfil sensorial e a identidade de suas receitas.

O resultado é que o consumidor brasileiro encontra com facilidade rótulos internacionais famosos, mas precisa entender que nem sempre eles mantêm o espírito artesanal original. Goose Island e Blue Moon, por exemplo, nasceram como artesanais, mas hoje fazem parte de conglomerados globais. Isso não significa necessariamente perda de qualidade, mas sim uma mudança de identidade: de cerveja independente para produto global. O mercado brasileiro, dominado por gigantes, oferece acesso a marcas internacionais, mas a verdadeira experiência artesanal ainda depende de importação ou da força das nossas próprias cervejarias independentes.

Muitas marcas se vendem como artesanais, mas já perderam essa essência. O consumidor que busca autenticidade precisa olhar além do rótulo e entender quem realmente está por trás da cerveja que chega ao seu copo.

Algumas cervejarias brasileiras já fizeram colaborações pontuais com nomes internacionais, e isso ajuda a mostrar que existe sim uma ponte criativa entre o nosso mercado e o cenário global, mesmo sem produção contínua sob licença. A Dogma, de São Paulo, já trabalhou com a escocesa BrewDog em edições especiais que misturaram estilos e técnicas. A Wäls, de Belo Horizonte, fez collabs com a dinamarquesa Mikkeller e até com a cultuada Hill Farmstead dos Estados Unidos, trazendo rótulos únicos para festivais e lançamentos limitados. A Invicta, de Ribeirão Preto, também se juntou à Stone Brewing, uma das referências da cena artesanal americana, em projetos colaborativos. A Colorado, antes de ser adquirida pela Ambev, participou de parcerias com cervejarias europeias, explorando ingredientes brasileiros em estilos tradicionais.

Essas collabs não significam produção regular no Brasil, mas funcionam como troca de conhecimento e aproximação cultural. São edições limitadas, muitas vezes voltadas para eventos, que reforçam a ideia de que o Brasil faz parte de uma comunidade global de inovação cervejeira. Para o consumidor, elas representam uma oportunidade rara de provar algo que carrega a assinatura de duas escolas diferentes em uma mesma garrafa..


Por: Maria Anita Mendes


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